Aceitação por Heithor Duarte

by - fevereiro 21, 2020


(Texto en español a continuación)


Quem diria que um dia eu fosse falar sobre aceitação.

Como viver em paz com você mesmo sem você se aceitar primeiro?
Não estou falando somente sobre a minha deficiência em si, mas de tudo no geral. Não é possível você viver com o mínimo de paz sem você se aceitar por inteiro. Eu entendo que cada pessoa tenha seu próprio tempo para entender certas coisas, e respeito isso. Mas acredito também que, quanto mais a gente se conhece internamente, quanto mais a gente se permite não desgostar daquele reflexo do espelho, mais a gente amadurece, mais a gente respira sem aquele peso estranho nas nossas costas. É uma sensação indescritível quando isso acontece. Exige sim, certo esforço e um treinamento diário para não se odiar, para não dar razão aquelas “más línguas” que a gente encontra pela vida vez ou outra.

Eu mesmo demorei mais de 25 anos pra me entender e aceitar de vez que, eu era uma pessoa com deficiência física. Eu tinha essa noção, mas no fundo, eu não queria aceitar que eu era diferente dos demais. O que foi totalmente ao contrario quanto a minha sexualidade e depois com a identidade de gênero.
Primeiro, sobre a descoberta da minha sexualidade na adolescência, até então, eu era uma menina que gostava de outras meninas, e eu nunca vi nada de errado em gostar de outras meninas também sendo uma. Mesmo na cabeça de uma adolescente de 13 anos, isso tudo era okay pra mim. E ai de quem brigasse comigo por conta disso, eu me defendia com unhas e dentes, pois eu realmente tinha me aceitado lésbica, e não tinha nada de errado com isso e acabou.
Já quanto a minha descoberta como uma pessoa trans, eu tive um pouco mais de receio. Primeiro porque se tratava de algo totalmente novo pra mim, onde mal tinha informação, o medo tomou conta por alguns meses, é fato. Depois de muita reflexão, de muitas conversas com pessoas queridas e com ajuda do meu psicólogo na época, eu consegui chegar à conclusão de que brigar contra quem eu era, era de uma estupidez sem tamanho. Mas porque diabos eu não conseguia me livrar daquele peso do “diferente” nas minhas costas?

Dentre todos os movimentos das minorias existentes, o movimento das pessoas com deficiência foi o que menos eu ouvi falar, ou melhor, eu nunca tinha ouvido falar de nada sobre PCDs sem aquele tom de piedade.
“Olha, tudo bem você ser lésbica, fazer o que, mas ser uma pessoa com deficiência? Nossa, tadinha de você... Mas fica calma, Deus tem um plano maior pra você. Você ainda vai se curar.”
Era como se, ter alguma deficiência fosse uma coisa muito feia, da qual você obrigatoriamente deve se sentir envergonhado. Nas escolas, não ensinam que está tudo bem ser diferente. Muitas vezes pregam sobre diversidade, mas na hora das belas palavras de inclusão saírem do papel a situação é bem diferente. Passar por todo esse processo foi muito difícil, pois eu não via pessoas iguais a mim na TV, nos jornais, nas revistas, mas o fato é que eu já era diferente, de uma forma ou de outra, certo? E quem não é? Porque eu devo me sentir mal e ter vergonha disso? Não fazia nenhum sentido eu lutar por uma causa tão linda como a dos direitos LGBTQIA+ e esquecer de outra luta tão linda igual, como a das pessoas com deficiência.

Nós não precisamos que nos olhem com pena, e muito menos que nos olhem depositando aquela enorme quantidade de incapacidade sobre nossos ombros.
O peso que a gente carrega, involuntariamente, é o que jogam em cima da gente imediatamente após a descoberta de que um bebê com deficiência nasceu ou depois daquele acidente, etc. Isso precisa acabar.
O diferente precisa deixar de ser ruim, de ser algo mal visto. E como a gente consegue isso? Falando, se expondo, mostrando ao mundo que não temos vergonha de ser desse jeito ou daquele jeito, e que se eles estão achando ruim nossos corpos ocuparem diversos lugares a partir de agora, eles que deveriam ficar em casa, pois nós não vamos voltar pra esse lugar de esquecimento. Estamos aqui, somo muitos, somos diversos, somos incríveis, e acabou.
Tenha orgulho de quem você é, mantenha sua mente aberta, conheça outras histórias, saia da bolha, se hidrate muito nesse carnaval, e bora arrebentar a cara de gente capacitista com nosso brilho e com nossa inteligência.


Heithor Duarte

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(Traducción en español)


Aceptación por Heithor Duarte


Quién diría que un día iba a hablar sobre aceptación?


Cómo vivir en paz contigo mismo sin aceptarte primero?
No estoy hablando solamente sobre mi discapacidad en sí, sino de todo en general. No es posible vivir con un mínimo de paz sin aceptarte enteramente. Entiendo que cada persona tenga su propio tiempo para entender algunas cosas, y lo respeto. Pero también creo que, cuanto más nos conocemos internamente, más nos permitimos no sentir asco por el reflejo en el espejo, más maduramos, más respiramos sin el peso extraño en la espalda. Es una sensación indescriptible cuando sucede. Exige sí, cierto esfuerzo y un entrenamiento diario para no odiarse, para no darle la razón a aquellas “malas lenguas” que se encuentran en la vida cada tanto.


Yo mismo demoré más de 25 años para entenderme y aceptar de una vez por todas que yo era una persona con discapacidad física. Yo tenía esa noción, pero en lo profundo, no quería aceptar que era diferente a los demás. Lo cual fue totalmente contrario en cuanto a mi sexualidad y después con mi identidad de género.


Primero, sobre el descubrimiento de mi sexualidad en la adolescencia, hasta entonces, era una gurisa que le gustaban otras gurisas, y nunca me pareció malo que me gustaran otras gurisas también siendo una. Incluso con la cabeza de una adolescente de 13 años, todo eso estaba bien para mí. Entonces me defendía con uñas y dientes de quien peleara conmigo por eso, porque realmente me había aceptado como lesbiana, y no había nada de malo con eso y se acabó.
Ya cuando me descubrí como persona trans, tuve un poco más de miedo. Primero porque se trataba de algo totalmente nuevo para mí, con la falta de información que tenía, el miedo se apoderó de mí por algunos meses, es cierto. Después de mucha reflexión, de muchas conversaciones con personas queridas y con ayuda de mi psicólogo de ese entonces, conseguí llegar a la conclusión de que pelear contra quien yo era, era de una estupidez enorme. Pero por qué diablos no lograba liberarme del peso de lo “diferente” en mis espaldas?


Entre todos los movimientos de las minorías existentes, el movimiento de las personas con discapacidad fue del que menos oí hablar, o mejor dicho, nunca había oído hablar de nada sobre PCDs sin el tonito de piedad.
“Mirá, todo bien con que seas lesbiana, hacé lo que quieras, pero ser una persona con discapacidad? Por dios, pobrecita… Pero tranquila, Dios tiene un plan mayor para vos. Te vas a curar”.
Era como si tener alguna discapacidad fuera una cosa muy fea, de la cual obligatoriamente te tenés que sentir avergonzado. En las escuelas no enseñan que está bien ser diferente. Muchas veces pregonan sobre la diversidad, pero a la hora de que las bellas palabras de inclusión salgan del papel la situación es bien diferente. Pasar por todo ese proceso fue muy difícil, porque no veía personas como yo en la TV, en los diarios, en las revistas, pero era un hecho que yo ya era diferente, de una forma u otra, no? Y quién no lo es? Por qué debo sentirme mal y tener verguenza de eso? No tenía ningún sentido que luchara por una causa tan linda como la de los derechos LGBTQIA+ y olvidarme de otra lucha tan linda también, como la de las personas con discapacidad.


Nosotros no necesitamos que nos miren con lástima, y mucho menos que nos miren depositando toda esa enorme cantidad de incapacidad sobre nuestros hombros.
El peso que cargamos, involuntariamente, es el mismo que le cargan a la gente inmediatamente después de descubrir que un bebé con discapacidad nació o después de aquel accidente, etc. Es necesario que se termine.


Lo diferente debe dejar de ser malo, de ser algo mal visto. Y cómo logramos eso? Hablando, exponiéndose, mostrando al mundo que no tenemos vergüenza de ser de esa forma o aquella, y que si a ellos les parece malo que nuestros cuerpos ocupen diversos lugares, a partir de ahora son ellos quienes deberán quedarse en casa, porque no vamos a volver a ese lugar del olvido.
Estamos acá, somos muchos, somos diversos, somos increíbles, y se acabó.

Tené orgullo de quien sos, mantené tu mente abierta, conocé otras historias, salí de la burbuja, hidratate mucho en este carnaval y que nuestro brillo e inteligencia explote en la cara de la gente.

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