Manifesto malacabado de uma feminista malacabada Por Mariana Silva

by - agosto 16, 2019


(Texto en español a continuación)

Ao leitor que aqui vem, quero dizer que este texto não tem nenhuma obrigação em cumprir requisitos formais de um manifesto. Tão pouco, um compromisso com normas e citações acadêmicas, apesar de eu reconhecer que muitas das provocações que trago vêm dos textos que li e das aulas que assisti.

Sou uma mulher com deficiência congênita que, por muito tempo esperou por uma cura. Cura esta que, obvio, nunca veio porque não estou doente. Quem está doente, a beira da morte, é esta sociedade onde todos estamos ligados em rede. Como estamos ligados nesta rede complexa, acabamos por correr o risco diário de adoecermos uns aos outros. E o problema do adoecimento generalizado do mundo decididamente não é meu.

Este mundo, por muito tempo, previu minha morte através dos discursos científicos vomitados pelos médicos que me apalpavam, mediavam, diagnosticavam, beliscavam… Eu era alvo de tantas violências que nem consigo escrever aqui. Uma luva gelada em um corpo quente é violência. Uma foto desnecessária de um joelho desalinhado também. Quando viram que eu resistia, foi previsto que eu perderia, em breve, minhas capacidades. Minha mãe fez uma rampa em minha casa. Isto foi cruel comigo e com quem me amava.

Pelo visto, nada disso aconteceu e, cá estou, resistindo ao esmagamento social que é existir fora do padrão. Andando. Viajando. Namorando. Rindo. Me irritando. E vomitando as piores experiências de não pertencimento que uma mulher com deficiência pode sofrer para quem quiser me ler. Dando para minhas vivências o lugar político que elas precisam ocupar. Você precisa saber o que a sua pós-modernidade fez comigo.

Só EU sei o que vivi. Então, apenas eu posso te contar. E falo por muitas. Somos uma legião. Só EU sei como foi chegar até aqui sendo invisibilizada em cada mínimo gesto só porque meu corpo não funciona da forma padronizada dos outros corpos. Foi um vaso onde preconceitos, esteriótipos, capacitismos, foram despejadas por anos e anos e anos.. De tão cansada, me dobrei as impossibilidades que nunca foram minhas. Me fez de vítima com o objetivo de ferir quem me feria. Mal sabia eu que estava sendo envenenada por meu próprio veneno.

A verdade é que eu sou perfeita e dona do meu corpo como poucas mulheres conseguem ser. A nós, mulheres com deficiência, são negadas as experiências viscerais do corpo, menarca, menstruação, fertilidade, reprodutividade, enfim, coisas básicas de um funcionamento normal do corpo porque os outros dizem que o nosso está estragado, “malacabado”. Eu, depois de muito chorar, de ir ao inferno e voltar mil vezes, de me rasgar e remendar, estou viva. E me movendo. Só cheguei neste lugar entendendo meus poderes e fraquezas e atravessando de cabeça erguida todas as minhas dores e tragédias.

Esta sociedade, que nos obriga a ser máquinas produtivas, me vê como uma pedra no caminho da produtividade. Não sou, se quer, um acessório, já que acessórios podem enfeitar ambientes e eu causo desconfortos inúmeros. Eu deveria produzir, ainda que fosse vista como uma “engrenagem defeituosa”. Sim, sou defeituosa e com voz suficiente para perguntar: onde está sua perfeição se você também falha?

Com relação ao feminismo, honro e agradeço às primeiras mulheres que problematizaram os cuidados para com as pessoas (filhos) com deficiência. Foi o nosso princípio, mas agora é preciso avançar já que nós mesmas devemos urgentemente começar a falar por nós mesmas. Devemos sair das sombras dos cuidados para cuidar de nos mesmas, ficando visíveis para quem quiser ver e para quem não quiser ver também. Eu existo. Me movo. Me relaciono. E, pasmem, produzo.

Minha existência é política, por tanto eu reivindico um lugar dentro do feminismo e de suas lutas poque sou mulher e posso lutar também. Sei que meu lugar é de privilégios, por isso o peso que carrego é enorme. São anos de silenciamento que vem antes destas minhas palavras. Muitas de nós não podem falar. É meu dever enquanto resistência consciente.

Há muito ainda para ser feito. É preciso um reconhecimento do corpo imperfeito como o único possível e real. É preciso que todas as correntes feministas nos enxerguem como forças pensantes e não como seres exóticos que são visitados esporadicamente, exatamente como um paciente é visitado esporadicamente nos hospitais. Só quem sabe da minha vida enquanto mulher com deficiência sou eu, isso è verdade. Mas vocês podem me ouvir, porque estou presente. E viva. E pulsando a cada nova ideia que tenho. A cada nova construção que faço. Eu tenho lugar no mundo, ainda que o mundo tente me esmagar.

Este manifesto malacabado não acaba aqui. Ele condensa um pouco da fala de muitas de nós, mulheres com deficiência. Mas eu não sei da vida de todas. Na verdade, em totalidade, só sei da minha, que tive de inventar do nada ja que não existiam referências sobre como ser uma mulher com deficiência. Talvez o grande segredo, aqui, seja ouvir o que outras mulheres com deficiência têm a dizer. E amplificar. O feminismo é uma escada para isso. Por hora sigamos. Existindo. E não sucumbindo ás dores que despejam em cima de nós.


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Manifiesto defectuoso de una feminista defectuosa


Al lector le quiero decir que este texto no tiene ninguna obligación de cumplir los requisitos formales de un manifiesto. Tampoco tiene un compromiso con normas y citas académicas, a pesar de que reconozco que muchas de las provocaciones que traigo vienen de los textos que leí y de las clases a las que fui.

Soy una mujer con discapacidad congénita que por mucho tiempo esperó una cura. Cura que, obvio, nunca vino porque no estoy enferma. Quien está enferma, al borde de la muerte, es esta sociedad donde todos estamos conectados en una red. Como estamos conectados en esta red compleja, terminamos corriendo el riesgo diario de enfermarnos unos a otros. Y el problema de la enfermedad generalizada del mundo definitivamente no es mío.

Este mundo, durante mucho tiempo, previó mi muerte a través de los discursos científicos vomitados por los médicos que me palpaban, medían, diagnosticaban, pellizcaban... Yo era el blanco de tantas violencias que ni siquiera puedo escribir acá. Un guante helado en un cuerpo caliente es violencia. Una foto innecesaria de una rodilla torcida también. Cuando vieron que resistía, previeron que perdería, en breve, mis capacidades. Mi madre me hizo una rampa en mi casa. Esto fue cruel conmigo y con quien me amaba.

Por lo visto, nada de todo eso sucedió y acá estoy, resistiendo a la represión social que es existir fuera de los patrones. Andando. Viajando. Enamorándome. Riendo. Enojándome. Y vomitando para quien me quiera leer las peores experiencias de no pertenecer que una mujer con discapacidad puede sufrir, dándole a mis vivencias el lugar político que necesitan tener. Necesitan saber lo que su posmodernidad hizo conmigo.

Sólo YO sé lo que viví. Entonces, sólo yo te puedo contar. Y hablo por muchas. Somos una legión. Sólo YO sé cómo fue llegar hasta acá siendo invisibilizada en cada mínimo gesto sólo porque mi cuerpo no funciona de la forma estandarizada de los otros cuerpos. Fui un recipiente en el cual los preconceptos, estereotipos, y capacitismos se volcaron por años y años y años... De tan cansada, me entraron las imposibilidades que nunca fueron mías. Me hice víctima con el objetivo de herir a quien me hería. No sabía que estaba siendo envenenada por mi propio veneno.
La verdad es que soy perfecta y dueña de mi cuerpo como pocas mujeres logran ser. A nosotras, las mujeres con discapacidad, nos son negadas las experiencias viscerales del cuerpo, la menarca, la menstruación, la fertilidad, la reproductividad, en fin, cosas básicas de un funcionamiento normal del cuerpo porque los otros dicen que el nuestro está dañado, "defectuoso". Yo, después de mucho llorar, de ir al infierno y volver mil veces, de desgarrarme y remendarme, estoy viva. Y moviéndome. Sólo llegué a este lugar entendiendo mis poderes y debilidades y atravesando de cabeza erguida todos mis dolores y tragedias.

Esta sociedad, que nos obliga a ser máquinas productivas, me ve como una piedra en el camino de la productividad. No soy, ni siquiera, un accesorio, ya que los accesorios pueden adornar ambientes y yo genero incomodidades innumerables. Yo debería producir, aunque fuera vista como un "engranaje defectuoso". Sí, soy defectuosa y tengo suficiente voz como para preguntar: "dónde está tu perfección si vos también fallás?"

En relación al feminismo, honro y agradezco a las primeras mujeres que problematizaron los cuidados a las personas (hijos) con discapacidad. Fue nuestro principio, pero ahora es necesario avanzar, ya que nosotras mismas tenemos que comenzar a hablar por nosotras mismas urgentemente. Tenemos que salir de las sombras de los cuidados para cuidarnos a nosotras mismas, siendo visibles para quien quiera ver y para quien no quiera ver también. Yo existo. Me muevo. Me relaciono. Y, asómbrense, produzco.

Mi existencia es política, y por lo tanto reivindico un lugar dentro del feminismo y de sus luchas porque soy mujer y puedo luchar también. Sé que mi lugar es privilegiado, por eso el peso que cargo es enorme. Son años de silenciamiento que vienen detrás de estas palabras mías. Muchas de nosotras no pueden hablar. Es mi deber entonces hacer una resistencia consciente.

Todavía hay mucho por hacer. Es necesario un reconocimiento del cuerpo imperfecto como el único posible y real. Es necesario que todas las corrientes feministas nos vean como fuerzas pensantes y no como seres exóticos que son visitados esporádicamente, exactamente como un paciente es visitado esporádicamente en los hospitales. La única que sabe de mi vida como mujer con discapacidad soy yo, eso es verdad. Pero ustedes me pueden oír, porque estoy presente. Y viva. Y latiendo con cada nueva idea que tengo. Con cada nueva construcción que hago. Tengo lugar en el mundo, aunque el mundo intente aplastarme.

Este manifiesto defectuoso no termina acá. Sintetiza un poco el discurso de muchas de nosotras, mujeres con discapacidad. Pero no conozco la vida de todas. En realidad, sólo sé de la mía, que tuve que inventar de la nada, ya que no existían referencias sobre cómo ser una mujer con discapacidad. Tal vez el gran secreto acá sea oír lo que otras mujeres con discapacidad tengan para decir. Y amplificar. El feminismo es una escalera para eso. Por ahora sigamos. Existiendo. Y no sucumbiendo a los dolores que vierten sobre nosotras.



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