Educação Por Mila D'Oliveira

by - julho 09, 2019


(texto em português)

15 de maio de 2019. Milhares de pessoas vão às ruas para protestar contra os cortes que o Ministro da educação anunciou para sua pasta. Estudantes e professores, especialmente, desolados por saberem que a educação superior não suportará mais esse golpe, além do quanto já vem sofrendo ao longo dos anos. Eu vivi a realidade da universidade pública em dois momentos distintos e pude entender a importância de um acesso amplo ao ensino gratuito e de qualidade, principalmente para pessoas com deficiência, como eu.
O primeiro momento foi em 2005, quando ingressei na faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, No primeiro ano das cotas sociorraciais foram implantadas. Muitos dos hábitos excludentes e elitistas da instituição foram aos poucos dando lugar a uma universidade mais plural, que precisava receber aquelas pessoas que finalmente tinham acesso ao ensino público. As dificuldades eram muitas, mas ali começava uma grande evolução do ensino superior no Brasil, onde víamos que transformaria a vida daqueles tradicionalmente excluídos. Esse movimento me ajudou a pensar de que forma a universidade é responsável por garantir que todas as pessoas se sintam parte dela, incluindo aí o grupo das pessoas com deficiência, que como eu, sofrem com a exclusão promovida pela falta de acessibilidade.

O prédio da faculdade de Direito da UFBA possui a rampas que dão acesso a todos os andares, bem como um elevador (que volta e meia quebrava, na minha época). Mas, infelizmente, um degrau alto na entrada conviveu comigo durante os cinco anos que eu passei lá. Diariamente, funcionários ou colegas colocavam a rampa de madeira improvisada para que eu entrasse na faculdade, ou seja, autonomia não era o forte ali, era apenas um gambiarra ficou ali. Naquela época, eu não era esse sujeito ciente dos seus direitos que sou hoje, cheguei a sinalizar na diretoria, mandei carta, sinalizando a necessidade de uma rampa correta, mas não fui pra frente com essas e outras reivindicações. Passei 5 anos sem usar o banheiro, que não era adaptado.

Pelo fato da faculdade de direito ficar isolada do restante do campus por uma escada, ou uma grande ladeira, fiz meu percurso acadêmico sempre priorizando matérias lá. Não vivi a universidade como deveria. Quando me dei conta já era muito tarde, mas ainda tive tempo de curtir uma das melhores experiências da minha vida no Instituto de Ciências da Saúde: uma extensão em acessibilidade e deficiência. A pesquisa e extensão é um componente importantíssimo para a formação tanto profissional quanto humana e isso é algo que só uma universidade com subsídios pode promover. Nessa minha experiência, junto com colegas de várias áreas- enfermagem, design, medicina, fisioterapia, educação- pude aprender sobre acessibilidade, desenho universal e deficiência. Nossos projetos visavam colocar luz nessas questões tão esquecidas. Já era o finalzinho da graduação, mas eu pude experienciar os benefícios que a multidisciplinaridade traz quando nos unimos por uma causa. Ainda era pouco, ainda não sentia que a universidade abraçava minha deficiência como deveria, mas já era um começo.
Quando formei, foi a realização de um sonho. Toda formatura significa algo para alguém, mas eu acredito que para pessoas com deficiência tenha um gostinho especial, principalmente se tratando de uma das melhores faculdades de Direito do Brasil. Enquanto os esteriótipos de incapacidade nos rondam, conquistas como essa nos mostram que somos mais fortes e capazes, que mesmo com a exclusão e falta de acessibilidade conseguimos alcançar esse patamar.

Alguns anos depois, em 2013, senti vontade de retornar à UFBA e prestei vestibular para Psicologia. Nos poucos semestres que fiquei lá, antes de trancar, pude perceber como a universidade tinha se expandido, muitas das dificuldades eram as mesmas, mas a oferta de cursos e estrutura, como ônibus nos campi e restaurantes, tinha se expandido. Uma das coisas que mais me alegraram foi conhecer outras pessoas com deficiência pelos prédios onde eu transitava, ver coletivos formado por nós e um núcleo de assistência pedagógica ao aluno com deficiência mais fortalecido e bem preparado para atender nossas demandas. Ainda tinha muito o que melhorar, mas ali eu entendi que é algo que é progressivo, que uma vez dando a nós as ferramentas para entrar e se manter na Universidade, poderíamos mudar realidade tanto dos alunos, dos profissionais que serão preparados para lidar conosco, melhorando assim inclusive a vida daqueles aqueles que ainda não tem um acesso pleno a educação. Éramos nós, mais qualificados e fortes, falando sobre nós, para nós, formando profissionais, com deficiência ou sem, que poderão contribuir bastante para seu entorno.

Para isso, muitos de nós precisamos que essa universidade seja gratuita e de qualidade. Os custos para se ter uma deficiência nesse país são altíssimos, desde a questão das tecnologias assistivas (cadeira de rodas, bengalas, softwares), terapias e cuidadores, precisar arcar com mais o curso da formação torna impossível para alguns. As bolsas de estudo para alunos com deficiência mantém muitos nas universidades, o corte de gastos atingirá em cheio essas pessoas que já não são facilmente inseridas no mercado de trabalho e procuram no curso superior uma chance de ascender.

Um país que não fortalece sua capacidade de produzir conhecimento está fadado a viver nas sombras, sem estudar e se preparar para cuidar do que é seu, das peculiaridades do seu povo. Para nós, pessoas com deficiência essa é uma luta muito cara, sem ela, nosso direito a educação, tão fortemente ameaçado, fica ainda mais em risco. Formaremos pessoas que não pesquisarão sobre nós, não contaremos com os tão importantes progressos científicos. Por isso, estejamos atentos a cada movimento que fortaleça a manutenção da universidade pública.

Mila D'Oliveira

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(texto en español)

15 de mayo de 2019. Millares de personas toman las calles para protestar contra los recortes que el Ministro de la educación anunció para su cartera. Estudiantes y profesores, especialmente, desilusionados por saber que la educación superior no soportará más ese golpe, más allá de todo lo que ya venían sufriendo a lo largo de los años. Yo viví esta situación de la universidad pública en dos momentos distintos y pude entender la importancia de un acceso amplio a la educación gratuita y de calidad, principalmente para las personas con discapacidad, como yo.
El primer momento fue en 2005, cuando entré a la facultad de Derecho de la Universidad Federal de Bahía, en el primer año que los cupos socio raciales fueron implementados. Muchos de los hábitos excluyentes y elitistas de la institución disminuyeron dando lugar a una universidad más plural, que tenía que recibir a aquellas personas que finalmente tenían acceso a la educación pública. Las dificultades eran muchas, pero empezaba una gran evolución de la enseñanza superior en Brasil, donde veíamos que transformaría la vida de aquellos tradicionalmente excluídos. Ese cambio me ayudó a pensar cuán responsable es la universidad de garantizar que todas las personas se sientan parte de ella, incluyendo al grupo de las personas con discapacidad, que como yo, sufren con la exclusión, promovida por la falta de accesibilidad.

El predio de la facultad de Derecho de la UFBA tiene rampas que dan acceso a todos los pisos, como también un ascensor (que dos por tres se rompía, en mi época). Pero, por desgracia, un desnivel alto en la entrada convivió conmigo durante los cinco años que pasé allá. Diariamente, funcionarios o colegas colocaban la rampa de madera improvisada para que yo entrara a la facultad, o sea, la autonomía no era el fuerte allí, era sólo una improvisación. En aquella época, yo no era esta persona consciente de sus derechos que soy hoy, fui a comentarlo en la dirección, mandé una carta, señalando la necesidad de una rampa correcta, pero no fui insistente con esas y otras reivindicaciones. Pasé 5 años sin usar el baño, que no estaba adaptado.

Por el hecho de que la facultad quedaba aislada del resto del campus por una escalinata o una ladera grande, hice mi recorrido académico siempre priorizando las materias que se encontraban allá. No viví la universidad como debería. Cuando me di cuenta ya era demasiado tarde, pero igual tuve tiempo de pasar por una de las mejores experiencias de mi vida en el Instituto de Ciencias de la Salud: una extensión en accesibilidad y discapacidad. La investigación y extensión son componentes importantísimos para la formación, tanto profesional como humana, y eso es algo que sólo una universidad con subsidios puede promover.

En esta experiencia mía, junto con colegas de varias áreas– enfermería, diseño, medicina, fisioterapia, educación– pude aprender sobre accesibilidad, diseño universal y discapacidad. Nuestros proyectos pretendían mover el foco hacia estas cuestiones tan olvidadas. Ya era el final de la licenciatura, pero pude experimentar los beneficios que la multidisciplinariedad trae cuando nos unimos por una causa. Seguía siendo poco, seguía sin sentir que la universidad tomaba mi discapacidad como debería, pero ya era un comienzo.

Cuando me formé, fue la realización de un sueño. Toda formación significa algo para alguien, pero creo que para las personas con discapacidad tiene un gustito especial, principalmente tratándose de una de las mejores facultades de Derecho de Brasil. Si bien los estereotipos de incapacidad nos rodean, las conquistas como esa nos muestran que somos más fuertes y capaces, que incluso con la exclusión y la falta de accesibilidad conseguimos alcanzar ese nivel.

Algunos años después, en 2013, sentí ganas de volver a la UFBA y di la prueba para entrar a Psicología. En los pocos meses que estuve, antes de tomarme una pausa, pude percibir cómo la universidad se había expandido, muchas de las dificultades eran las mismas, pero la oferta de cursos y la estructura, como los ómnibus de los campus y los restaurantes, se había expandido. Una de las cosas que más me alegraron fue conocer a otras personas con discapacidad por los espacios por donde transitaba, ver colectivos formados por nosotros y un núcleo de asistencia pedagógica al alumno con discapacidad más fortalecido y bien preparado para atender a nuestras demandas. Todavía había mucho para mejorar, pero ahí entendí que es algo que es progresivo, que una vez que se nos dieran las herramientas para entrar y mantenernos en la Universidad, podríamos cambiar la realidad tanto de los alumnos, como la de los profesionales que serán preparados para tratar con nosotros, mejorando así incluso la vida de aquellos que aún no tienen un acceso pleno a la educación. Éramos nosotros, más calificados y fuertes, hablando sobre nosotros, para nosotros, formando profesionales, con discapacidad o sin, que podrán contribuir bastante a su entorno.

Para eso, muchos de nosotros necesitamos que la universidad sea gratuita y de calidad. Los costos de tener una discapacidad en este país son altísimos, desde la cuestión de las tecnologías de apoyo (silla de ruedas, muletas, softwares), terapias y cuidadores, tener que asumir el costo de otro curso de formación se vuelve imposible para algunos. Las becas de estudio para alumnos con discapacidad mantienen a muchos en las universidades, el recorte de costos afectará de lleno a esas personas que, además, no pueden insertarse con facilidad en el mercado de trabajo y buscan en la enseñanza superior una oportunidad de ascender.

Un país que no fortalece su capacidad de producir conocimiento está condenado a vivir en las sombras, sin estudiar ni prepararse para cuidar lo que es suyo, las peculiaridades de su pueblo. Para nosotros, las personas con discapacidad, esa es una lucha muy importante, sin ella, nuestro derecho a la educación, tan fuertemente amenazado, queda aún más en riesgo. Formaremos personas que no investigarán sobre nosotros, no contaremos con los tan necesarios progresos científicos. Por eso, estemos atentos a cada movimiento que fortalezca la manutención de la universidad pública.

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