A cura do corpo pelo corpo por Mariana Silva

by - julho 02, 2019


(em português)

Estou bastante feliz por inaugurar este espaço. É mais um lugar de fala que nos lembra de nossa existência, por tantas vezes apagada. Então, pensando nessas questões de existência e em tudo que elas nos provocam, preciso te perguntar uma coisa: você já olhou para o seu corpo hoje? Ou, ao menos, para o espelho? Já prestou atenção ás suas formas, seus detalhes, suas curvas, suas retas... Tudo tão bonito e tão hostilizado por nós, pessoas com deficiência, que nos vemos como objetos quebrados por uma sociedade que tenta nos definir e limitar através de nossas (in)capacidades e (in)perfeições. 

Eu, por muito tempo, não me enxerguei como mulher potente mas, ao contrário disso, me vi como “coisa faltante”. Me faltava o corpo bonito, o joelho milimetricamente posicionado, o olho que funcionasse perfeitamente bem. Por muito tempo as deficiências me carregaram quando deveria acontecer o contrário: eu apenas deveria carregar as deficiências em mim. Hoje, depois de um longo caminho em busca de ser generosa, posso dizer que me olhar com honestidade e carinho é uma atitude que eu já consigo tomar. As vezes me paro em frente o espelho e apenas me observo. Olho as pintinhas que tenho na barriga, o olhar um pouquinho vesgo, as cicatrizes das cirurgias. E me gosto. Gosto do trabalho que fiz para me transformar em meu próprio lar. 

Tudo começou quando eu me reconheci enquanto mulher Primeiro, tive que me ver enquanto pessoa dotada de um corpo. E, mais recentemente, quando eu comecei a estudar os lugares, os poderes, e as questões do corpo no social. A minha cura veio através do reconhecimento do meu corpo. Existir e se reconhecer enquanto pessoa com deficiência é um ato de coragem porque ninguém quer estar atrelado ás suas vulnerabilidades. Por isso é complicado dizer: uau, que cicatriz linda eu tenho na perna! Mas é essa cicatriz que me permite andar hoje, porque foi graças a cirurgia que eu fiz que estou de pé. Estou saudável, vivo uma vida plena, e é meu corpo que me proporciona isso. Não estou bonita todos os dias, também não estou alegra todos os dias. Mas, é nesse corpo, que hoje consigo admirar no espelho, que adquiro a consciência necessária para ser quem sou. Então, para todas as minhas marquinhas que só me fazem ter o corpo que tenho hoje só consigo dizer: obrigada!

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(en español)

La cura del cuerpo por el cuerpo

Estoy bastante feliz de inaugurar este espacio. Es otro lugar de diálogo que nos recuerda nuestra existencia, tantas veces ocultada. Entonces, pensando en estas cuestiones de existencia y en todo lo que nos provocan, necesito preguntarte una cosa: ya miraste tu cuerpo hoy? O, al menos, al espejo? Ya prestaste atención a tus formas, tus detalles, tus curvas, tus rectas... Todo tan bonito y tan hostilizado por nosotras, personas con discapacidad, que nos vemos como objetos quebrados por una sociedad que nos intenta definir y limitar a través de nuestras (in)capacidades e (in)perfecciones. Yo, por mucho tiempo, no me entendí como una mujer potente sino, al contrario, me vi como una "cosa faltante".

 Me faltaba el cuerpo bonito, la rodilla milimétricamente ubicada, el ojo que funcionara perfectamente bien. Por mucho tiempo las discapacidades me conducieron cuando debería suceder lo contrario: yo sólo debería conducir a las discapacidades que hay en mí. Hoy, después de un largo camino en búsqueda de ser generosa, puedo decir que mirarme con honestidad y cariño es una actitud que ya logro tener. A veces me paro frente al espejo y sólo me observo. Miro los lunares que tengo en la panza, la mirada un poco bizca, las cicatrices de las cirugías. Y me gusto. Me gusta el trabajo que hice para transformarme en mi propio hogar. Todo empezó cuando me reconocí como mujer. Primero, tuve que verme como persona dotada de un cuerpo. Y, más recientemente, cuando comencé a estudiar los lugares, los poderes, y las cuestiones del cuerpo en lo social. Mi cura vino a través del reconocimiento de mi cuerpo. Existir y reconocerse como persona con discapacidad es un acto de coraje porque nadie quiere reconocer sus vulnerabilidades. Por eso es complicado decir: guau, qué cicatriz tan linda que tengo en la pierna! Pero es esa cicatriz que me permite andar hoy, porque fue gracias a la cirugía que tuve que estoy de pié. Estoy saludable, vivo una vida plena, y es mi cuerpo el que me proporciona eso. No estoy bonita todos los días, tampoco estoy alegre todos los días. Pero, es en este cuerpo, que hoy logro admirar en el espejo, que adquiero la consciencia necesaria para ser quien soy. Entonces, para todas mis marquitas que sólo me hacen tener el cuerpo que tengo hoy sólo puedo decirles: gracias!

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