Não seremos mais ignorados Por Marina Batista

by - junho 28, 2019


(texto em português)
Estava em mais uma madrugada insone quando me deparei com tweets de ativistas estrangeiros das questões das pessoas com deficiência comentando sobre mais um caso de falta de acesso. Contudo, não eram comentários comuns ao dia a dia: todos tinham como tema central a premiação anual da comédia canadense (Canadian Comedy Awards) e a recusa do elenco completo de um dos indicados na categoria “Melhor Elenco Ao Vivo” (tradução livre) em comparecer na noite de premiação.

O concorrente ao prêmio e agora centro das atenções nas redes sociais era a peça Generally Hospital, comédia de esquetes que se passa em ambiente hospitalar e tira a nebulosidade dramática e o estigma que doenças, deficiências e “funções corporais” sempre tem em torno de si. A peça nasceu a partir da vivência traumática de duas das autoras e integrantes do grupo. Uma delas, Ophira, é cadeirante e em um trabalho anterior ao lado sua colega de Generally Hospital teve um acidente que lhe rendeu 2 meses em um hospital e várias visitas dessa colega: uma das rodas dianteiras da cadeira motorizada de Ophira deslizou para fora do palco fazendo com que sua cadeira tombasse.

O grupo soltou nota agradecendo a indicação, os votos e empenho popular desde sua nomeação ao prêmio esclarecendo as razões para o boicote da cerimônia de premiação e essa foi uma das únicas vezes em que nesses meus quase 35 anos de existência vi o coletivo tomar partido e se impor para a valorização de uma pessoa com deficiência, cobrando que através de um representante toda uma minoria silenciada e desvalorizada fosse respeitada:

“Ophira, um dos 5 autores e artistas de Generally Hospital é uma pessoa com deficiência e usa uma cadeira de rodas motorizada. Ela está privada da celebração de um prêmio para o qual ela e o grupo foram nomeados.
Quando tivemos nossa primeira reunião como grupo encontramos a base comum, em nossas experiências individuais, de nos sentirmos invisíveis e sermos silenciados de várias formas. Nosso objetivo para a peça era tirarmos o véu das experiências e perspectivas que não são contadas - particularmente aquelas envolvendo doença e deficiência. Sermos nomeados para o prêmio foi como um sinal da comunidade da comédia de que essas experiências estavam sendo reconhecidas e nossas histórias importavam.
Frequentemente pessoas com deficiência são colocadas numa categoria a parte em diversas áreas do cotidiano, incluindo a indústria artística. Ter uma pessoa com deficiência nomeada para um prêmio nacional - e todo reconhecimento que vem com isso - foi empolgante e nos deu esperança para então sermos excluídos dessa forma incrivelmente desanimadora.
Entendemos que existem restrições de tempo, orçamento e energia. Mas isso é inaceitável. Isso nos faz sentir invisíveis e isso dói.
Esse é um problema comunitário. 1 em cada 5 canadenses são pessoas com deficiência. Acessibilidade não pode continuar sendo uma ideia postergada, é preciso ser priorizada agora.”

Embora tenha ficado feliz e surpresa com a iniciativa de todo o grupo e consideração com um único integrante do elenco, a minha felicidade genuína estava no conteúdo da nota. A delicadeza de compreender a logística envolvida em um evento sem deixar de se colocar contra a ideia de que acessibilidade é mero adereço arquitetônico. Acessibilidade é acima de tudo atitude do coletivo. A nota cobra a responsabilidade de todos da sociedade para que sejam agentes que cobrem e promovam o acesso e o respeito devido as pessoas com deficiência, não deixa isso a cargo apenas de nós PcDs. E esse é um ponto no qual sempre acreditei e sinto falta na realidade brasileira. O grupo ainda dá mais um exemplo real do verdadeiro significado de inclusão ao boicotar o evento. Não estão fazendo isso por mídia, mas por valorizarem uma profissional sem a qual a peça nem existiria em primeiro lugar. Por valorizarem uma pessoa que teve seu trabalho reconhecido e deve usufruir deste reconhecimento tanto quanto o resto do elenco e de seus pares profissionais. Para Generally Hospital, a atriz Ophira é parte, não está a parte.

Ophira é igual e não merece ser apagada de um trabalho pelo qual se empenhou. Não é mera questão de solidariedade como alguns colocaram, é sobre o valor que a pessoa tem em seu meio social. Ninguém é bondoso ou caridoso com seu não comparecimento, mas demonstram com isso a força que uma iniciativa coletiva em busca de valores humanos pode ter.

Pessoas com deficiência estão acostumadas a dificuldade em serem (e se sentirem) parte de um grupo social. Se demandamos e cobramos o mínimo transformamos passeios em uma batalha, somos chatos, exigentes. Com o tempo vamos ficamos de canto por escolha “para não perturbar”, nos sujeitamos a jeitinhos ou não somos mais chamados para grande parte dos encontros e reuniões. Se existe uma pessoa com deficiência que nunca deixou de ser chamado para algo e recebeu como justificativa a dúvida da existência de acesso ou completa inexistência dele, ainda não conheci. Se fossemos parte valorizada da nossa sociedade encontros e reuniões só seriam marcados onde a acessibilidade fosse certa. Existimos, mas não temos a existência igualmente valorizada como pessoas que somos. Somos apenas uma redução, uma categoria a parte: pessoas com deficiência.

É preciso ter a acertividade e delicadeza da nota do grupo canadense para transformar essa realidade. É preciso nos cercarmos de aliados que nos vêem e valorizam como pessoas, que não nos reduzem a um traço da nossa existência. É preciso que nos vejam como amigos, profissionais, parceiros para a vida. Ilustrações com dizeres “ninguém solta a mão de ninguém” são lindas, cativantes, emocionantes, mas quantos postaram isto e estão realmente segurando nossas mãos, tomando nossas dores e problemas para si, trazendo mais aliados e formando uma corrente realmente transformadora? Quantas vezes usaram o termo “diversidade” e nele estavam incluídas questões da pessoa com deficiência? Quantas vezes o feminismo deu voz para mulheres com deficiência? Quantas vezes o negro com deficiência foi ouvido pelos seus? É hora de priorizar e ouvir a única minoria que dialoga e está contida em todas as outras minorias. Já passou da hora de valorizarem a pessoa com deficiência, já passou da hora de sermos parte essencial da sociedade.

E se você acha que pequenas ações como o boicote de um pequeno grupo de pessoas com motivações relevantes em nome de um único indivíduo não transformam realidades... trago notícias: a organização vai alterar local da premiação para outro com acessibilidade e Ophira tenha o reconhecimento que merece. Em suas palavras: “nós tivemos a sensação de que a grande maioria da comunidade não percebeu que as pessoas se importavam. Não sou só um pontinho que pode ser ignorado”.

Assim como Ophira não seremos mais ignorados!


Galeria PCD


Estaba en otra madrugada insomne cuando me encontré con tweets de activistas extranjeros de las cuestiones de las personas con discapacidad comentando sobre otro caso de falta de accesibilidad. Con todo, no eran comentarios comunes del día a día: todos tenían como tema central la premiación anual de la comedia canadiense (Canadian Comedy Awards) y El rechazo del elenco completo de uno de los nominados en la categoría "Mejor Elenco En Vivo" (traducción libre) a comparecer en la noche de la premiación.

La nominada al premio y ahora centro de atención en redes sociales era la serie Generally Hospital, comedia de sketches que transcurre en un ambiente hospitalar y saca la nebulosidad dramática y el estigma que las enfermedades, discapacidades y "funciones corporales" siempre tienen a su alrededor. La serie nació a partir de una vivencia traumática de dos de las autoras e integrantes del grupo. Una de ellas, Ophira, es usuaria de silla de ruedas y en un trabajo anterior con su colega de Generally Hospital tuvo un accidente que la dejó dos meses en un hospital y varias visitas de esa colega: una de las ruedas delanteras de la silla motorizada de Ophira se deslizó para afuera del escenario haciendo que su silla cayera.

El grupo sacó una nota agradeciendo la nominación, los votos y el esfuerzo popular desde su nominación al premio aclarando las razones para el boicot de la ceremonia de entrega de premios y esa fue una de las únicas veces en que en mis casi 35 años de existencia vi al colectivo tomar partido e imponerse para la valorización de una persona con discapacidad, haciendo que a través de un representante toda una minoría silenciada y desvalorizada fuese respetada:


"Ophira, una de los 5 autores y artistas de Generally Hospital es una persona con discapacidad y usa una silla de ruedas motorizada. Ella está privada de celebración de un premio para el cual ella y el grupo fueron nominados.
Cuando tuvimos nuestra primera reunión como grupo encontramos algo en común en nuestras experiencias individuales, en sentirnos invisibles y ser silenciados de varias formas. Nuestro objetivo para la serie era sacar el velo de las experiencias y perspectivas que no son contadas – particularmente aquellas alrededor de la enfermedad y la discapacidad. Ser nominados para el premio fue como una señal de la comunidad de la comedia de que esas experiencias estaban siendo reconocidas y nuestras historias importaban.
Frecuentemente las personas con discapacidad son ubicadas en una categoría aparte en diversas áreas cotidianas, incluyendo la industria artística. Tener a una persona con discapacidad nominada para un premio nacional – y todo el reconocimiento que viene con eso – fue emocionante y nos dio esperanza para entonces ser excluídos de esa forma increíblemente desanimadora.
Ese es un problema comunitario. 1 de cada 5 canadienses son personas con discapacidad. La accesibilidad no puede continuar siendo una idea postergada, y en necesario priorizarla ahora."
Aunque me había quedado feliz y sorprendida con la iniciativa de todo el grupo y la consideración con un único integrante del elenco, mi felicidad genuina estaba en el contenido de la nota. La delicadeza de comprender la logística involucrada en un evento sin dejar de colocarse contra la idea de que la accesibilidad es un mero adorno arquitectónico.

La accesibilidad es sobre todo la actitud del colectivo. La nota llama a la responsabilidad de todos en la sociedad para que sean agentes que reclamen y promuevan el acceso y el respeto debido a las personas con discapacidad, no deja eso sólo a cargo de nosotros, las PCDs.

Y ese es un punto en el cual siempre creí y del cual siento falta en la realidad brasilera. El grupo incluso da otro ejemplo real del verdadero significado de la inclusión al boicotear el evento. No están haciendo eso para llamar la atención de los medios, sino por valorar a una profesional sin la cual la serie no existiría en primer lugar.

Por valorar a una persona cuyo trabajo fue reconocido y debe usufructuar de este reconocimiento tanto como el resto del elenco y de sus pares profesionales. Para Generally Hospital, la actriz Ophira es parte, no está aparte.
Ophira es igual y no merece ser apagada en un trabajo con el cual se comprometió. No es una mera cuestión de solidaridad como algunos plantearon, es sobre el valor que la persona tiene en su medio social. Nadie es bondadoso o caritativo al no comparecer, sino que demuestran con eso la fuerza que puede tener una iniciativa colectiva en busca de valores humanos.
Las personas con discapacidad están acostumbradas a la dificultad en ser (y sentirse) parte de un grupo social. Si demandamos y reclamamos lo mínimo transformamos paseos en una batalla, somos pesados, exigentes.

Con el tiempo terminamos eligiendo abrirnos a un costado "para no molestar", buscamos otras formas o no somos más invitados a gran parte de los encuentros y reuniones. Si existe una persona con discapacidad que nunca dejó de ser invitado a algo y recibió como justificación la duda de que haya accesibilidad o su completa falta, todavía no la conocí
Si fuéramos una parte valorada de nuestra sociedad, los encuentros y reuniones sólo serían fijados en lugares donde hubiera accesibilidad. Existimos, pero nuestra existencia no es igual de valorada como personas que somos. Somos apenas una reducción, una categoría aparte: personas con discapacidad.

Es necesario tener la acertividad y delicadeza de la nota del grupo canadiense para transformar esta realidad. Es necesario rodearnos de aliados que nos ven y valoran como personas, que no nos reducen a una característica de nuestra existencia.
Es necesario que nos vean como amigos, profesionales, compañeros en la vida. Ilustraciones con frases como "nadie suelta la mano de nadie" son lindas, cautivantes, emocionantes, pero cuántos las publican y no están realmente agarrando nuestras manos, adoptando nuestros dolores y problemas, trayendo más aliados y formando una corriente realmente transformadora?

Cuántas veces usaron el término "diversidad" y estaban incluídas las cuestiones de las personas con discapacidad? Cuántas veces el feminismo le dio voz a las mujeres con discapacidad? Cuántas veces el negro con discapacidad fue oído por los suyos?
Es hora de priorizar y oír a la única minoría que dialoga y es parte de todas las otras minorías. Ya es hora de que valoren a la persona con discapacidad, ya es hora de que seamos parte esencial de la sociedad.

Y si te parece que las acciones pequeñas como el boicot de un pequeño grupo de personas con motivaciones relevantes en nombre de un único individuo no transforman realidades... traigo noticias: la organización va a cambiar el local de la entrega de premios para otro con accesibilidad para que Ophira tenga el reconocimiento que merece.

En sus palabras: "nosotros tuvimos la sensación de que la gran mayoría de la comunidad no se dio cuenta de que a las personas les importaba. No soy sólo un puntito que puede ser ignorado".
Así como Ophira no seremos más ignorados!

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